sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Confissão

Escrevo para expulsar a realidade latente que há dentro de mim. Às vezes dou-me conta de que não passa de uma tentativa inútil, sabe-se lá...
Mas acredito nas palavras escritas e isso faz doer menos, engana os meus sentidos, parece uma espécie de droga alucinógena que causa menos autodestruição. Pena que o efeito é oscilante.
Escrever...
Quem sabe não signifique salvação?

Por: Ilka Souza

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Alegria meus senhores, alegria...

Carnaval - Tarsila do Amaral

De repente ela parou e repensou os últimos acontecimentos. Percebeu que tudo se assemelhara a um pesadelo que parecia não ter fim, daqueles que você não enxerga uma possibilidade de acordar, que chega até a sufocar. Notou então que era possível respirar, viver de um modo diferente, aliás, viver melhor do que antes.
Acordou mudada, sentiu a falta do que viria, sentiu a falta do novo. Disponibilizou-se a sorrir novamente (o movimento dos maxilares para tal ato ainda doía um pouco, mas assim como qualquer contusão muscular logo passaria). Não deixaria as páginas desbotadas de um vão passado mancharem os seus dias.
Cores, música, sabor, encorpavam seu livre almejo. Novas perspectivas a esperavam e a possibilidade do novo a inebriava. Inéditas palavras saltavam de sua mente, recheadas de uma poesia nunca dantes proferida, uma poesia em reconstrução, aquela que reescreveria sua vida...
Serpentinas começavam a cair, máscaras voltavam a ter como função ocultar enigmaticamente belezas desconhecidas. Cambaleante, ela se propunha a levantar. Os maus pensamentos logo ficariam a esmo. Precisava recomeçar.
Iluminada assiduamente pelo sol, a lua, aos poucos, voltava a brilhar.
O belo mais uma vez remanesceria ao grotesco.
Alegria meus senhores, alegria...
Era tudo o que esperava para si.


Por: Ilka Souza

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Chuva


Chove chuva
Vem, Oh chuva
Leva chuva
Lava chuva
O sol virá,
Sua luz prevalecerá
Limpo estará o chão que vou pisar.

Por: Ilka Souza

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Palavreando

Pode parecer simples
Aprender o que a
Língua nos diz
Aprender a
Verdade de tudo
Recriar o que achamos imundo
E amar
As mais belas coisas do mundo.
Nada será em vão, se vir
Do fundo do seu coração
O prazer de não apenas dizer “não”.

Por: Ilka Souza

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Vão


Solidão acostuma,
Não é bem-vinda,
Instala-se de uma forma a não ser percebida.

Quando a felicidade vem,
Assusta.
Mas a segurança defendida por alguém
Transfigura o medo. Dá forças.
Palavras são artifícios viscerais,
Rosas têm perfume alucinógeno, e o olhar...
tem poder paralisante.

Mas e quando o “Mundo” é citado em vão?
A tal segurança oscila...
E como a razão se sustenta?

Vêm a dúvida e a vulnerabilidade,
O medo e a saudade...
Saudade do tempo bom sem conflitos,
Saudade de uma mente livre de desafios.
Saudade...
De uma incerteza mascarada.


Por: Ilka Souza

domingo, 20 de novembro de 2011

Devagarinho

As mais belas palavras,
Aquelas mesmas...
As mais desejadas.
Talvez eu não queira mais ouvi-las.
Ou então eu não sei como recebê-las.
Culpa de conceitos,
Medos,
Dúvidas.
Não me resta nada a perder,
Tenho é tudo a ganhar.

E quando olho pra ti minha voz emudece,
A saliva se esvai,
Meus reflexos desobedecem.
Vem-me aquele pertinente frio na barriga
Mas o meu coração,
Ah! Estúpido coração...
Ele não acelera.
O que eu mais quero é saber que te amo.

No entanto,
 Nada como o tempo para me fazer notar o inevitável:
Não quero viver com tua ausência,
Sua presença me detém num estado em que
só a euforia me contém.
Noto, enfim, que uma reformulação bem à altura me convém:
O “eu te amo”, como diria Quintana:
“tem de ser bem devagarinho”.


Por: Ilka Souza

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Conto com a dúvida

Ao caminhar por seus pensamentos ela percebeu, de repente, que não sabia quem era. Notou que o que a intimidava não a atingia mais, e até mesmo o que lhe causava um estopim de emoções agora era irrelevante.

Sentiu aquele cheiro que, há tempos, lhe causava arrepios de euforia e, quem sabe, excitação, mas nada a acometeu. Percebeu que o silêncio da sala vazia preenchido apenas com suas significativas presenças agora causava um peso enorme no ar que respiravam e um súbito esquecimento do que fazer e do que dizer, o que antes seria substituído por um beijo. Exatamente isso: antes. E não hoje. Não naquele momento.

Uma dúvida, no entanto, tornou-se constante em seus devaneios: será que alguém seria capaz, um dia, de provocar-lhe tais sentimentos que outrora sentira por ele?
Isso só o tempo dirá...

Por: Ilka Souza

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O tempo

Salvador Dali
Todos estavam certos:
O tempo traz todos os ensinamentos.
Aprendemos a sentir saudades sem chorar,
Sentir culpa sem enlouquecer,
Errar e se acomodar.

O tempo tem me mostrado que não dei valor a quem de fato merecia,
Não demonstrei na hora certa o que sentia,
Não consertei no momento exato o que havia para mudar.

Sua maior artimanha, nobre tempo, é me fazer aprender vivendo,
E por não ter o poder de te fazer regressar eu tenho que me reinventar
A cada segundo, minuto e hora.
A cada suspiro,
A cada vestígio de vida que me restar.

Por: Ilka Souza

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sopa de Letras

Membros dormentes,
Mente inquieta...
Decididamente não sei lidar com a ansiedade.
Há medo. Há insegurança.
Medo de errar, de magoar
E até mesmo de acertar.
Contudo, o que ultrapassa todos os limites
É o medo de ser enganada.

Pior do que ser traída por um suposto alguém
É ser iludida por quem mais me convém:
Meu senso de escolha.

Minha cabeça se dissolveu numa verdadeira sopa de letras,
Na qual cada uma delas indica um sabor e um caminho a seguir.
Será que devo provar do doce ou do amargo?
Ou deveria levar-me pelo, talvez insípido, sabor da surpresa?

Por: Ilka Souza

sábado, 13 de agosto de 2011

Reciclagem

Estou precisando urgentemente de reciclagem.
Reciclagem de sonhos,
Ideias e ideais;
Reciclagem de desejos e
Ambições.
Reciclagem de relações,
De coragem,
Situações
E principalmente: Realizações.
Tenho que virar o disco,
Lavar a lente dos meus óculos
E resgatar a minha essência.
Tirarei a cera dos meus ouvidos
E ouvirei o que talvez ignore.
Necessito livrar-me deste comodismo exacerbado.
O que preciso urgentemente é Viver.



Por: Ilka Souza

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Cara eu,

Conheço-te a muito, porém, continuo a não compreender-te.
Vejo que o tempo passa, você muda, as pessoas ao teu redor se transformam, a tua vida  acompanha, mas tua mente não. Os medos, as ânsias e desejos continuam aí, a perturbar-te.
Desejos de ser livre, de viajar, amar, se amar. Desejos de ter coragem e se achar capaz de chegar aonde for. Os outros a vêem como uma fortaleza cheia de determinação, mas ao se olhar no espelho você só enxerga decepção. Por quê?
És forte e capaz, tens o dom das palavras, mesmo que estando em aprimoramento. Tens também o dom de sonhar e isto é essencial na busca da felicidade. Não tenha medo de tentar, não tenha medo de conseguir, por que sim, um dia isto acontecerá e você verá o quão tola foi ao temer o futuro. Perceba que viver o presente é essencial a tua existência, deixa a poesia apoderar-se de ti e transformar o mundo que vês.
A beleza está presente em tudo, basta que ela seja vista, compreendida e vivida.

Com carinho,
                                Eu.



Por: Ilka Souza