domingo, 4 de março de 2012

Desritmo

Destino
Desatino
Descompasso
Despreparo
Descrença
Desamparo.
Logo,
Despedaço-me em
Dez pedaços.
Desmascaro a nota do
Descaso e
Sigo neste compasso
Com a melodia do que não foi dito.

Ilka Souza

Arte

Ar, arte, amar-te,
Tudo isto faz parte
Do que vem no meu enc’arte.

Ilka Souza

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Girar.


Sentir a água cair no seu corpo. Retirar toda a sujeira vinda da rua. Lavar os maus pensamentos. Focar em si. Secar seu corpo. Aos poucos vestir-se. Olhar no espelho. Ver a si mesma. Escutar sua banda preferida. Aumentar o volume do som.
Girar. Girar. Girar. Girar...
Era tudo o que precisava para se sentir viva.

Por: Ilka Souza

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A menina e as palavras

Enquanto a menina corria ao encontro das palavras elas simplesmente desapareciam.
A garota andava, se entreolhava... Balbuciava,
Mas os sentidos que realmente buscava insistentemente não vinham.
As palavras, no entanto, com o passar do tempo desenvolveram o livre desejo de abraçá-la, porém quando acontecia, raramente a garota notava.
Iniciava-se então um eterno pique - esconde entre escritora e poesia.
Havia horas de ânimo, desânimo e de completa apatia.
Muitas vezes quando uma palavra intercedia, a garota estava dormindo e em forma de sonho ela se recriava. Se ela se lembrasse de tudo ao acordar isso sim causaria completa alegria.
Quando ocorria de, ao menos, pequenos pedaços das belas histórias saltarem-lhe à mente, ela logo anotava, senão tudo se apagava...
Assim levava a vida a triste escritora que se perdeu no caminho da poesia.

Por: Ilka Souza

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Confissão

Escrevo para expulsar a realidade latente que há dentro de mim. Às vezes dou-me conta de que não passa de uma tentativa inútil, sabe-se lá...
Mas acredito nas palavras escritas e isso faz doer menos, engana os meus sentidos, parece uma espécie de droga alucinógena que causa menos autodestruição. Pena que o efeito é oscilante.
Escrever...
Quem sabe não signifique salvação?

Por: Ilka Souza

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Alegria meus senhores, alegria...

Carnaval - Tarsila do Amaral

De repente ela parou e repensou os últimos acontecimentos. Percebeu que tudo se assemelhara a um pesadelo que parecia não ter fim, daqueles que você não enxerga uma possibilidade de acordar, que chega até a sufocar. Notou então que era possível respirar, viver de um modo diferente, aliás, viver melhor do que antes.
Acordou mudada, sentiu a falta do que viria, sentiu a falta do novo. Disponibilizou-se a sorrir novamente (o movimento dos maxilares para tal ato ainda doía um pouco, mas assim como qualquer contusão muscular logo passaria). Não deixaria as páginas desbotadas de um vão passado mancharem os seus dias.
Cores, música, sabor, encorpavam seu livre almejo. Novas perspectivas a esperavam e a possibilidade do novo a inebriava. Inéditas palavras saltavam de sua mente, recheadas de uma poesia nunca dantes proferida, uma poesia em reconstrução, aquela que reescreveria sua vida...
Serpentinas começavam a cair, máscaras voltavam a ter como função ocultar enigmaticamente belezas desconhecidas. Cambaleante, ela se propunha a levantar. Os maus pensamentos logo ficariam a esmo. Precisava recomeçar.
Iluminada assiduamente pelo sol, a lua, aos poucos, voltava a brilhar.
O belo mais uma vez remanesceria ao grotesco.
Alegria meus senhores, alegria...
Era tudo o que esperava para si.


Por: Ilka Souza

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Chuva


Chove chuva
Vem, Oh chuva
Leva chuva
Lava chuva
O sol virá,
Sua luz prevalecerá
Limpo estará o chão que vou pisar.

Por: Ilka Souza

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Palavreando

Pode parecer simples
Aprender o que a
Língua nos diz
Aprender a
Verdade de tudo
Recriar o que achamos imundo
E amar
As mais belas coisas do mundo.
Nada será em vão, se vir
Do fundo do seu coração
O prazer de não apenas dizer “não”.

Por: Ilka Souza

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Vão


Solidão acostuma,
Não é bem-vinda,
Instala-se de uma forma a não ser percebida.

Quando a felicidade vem,
Assusta.
Mas a segurança defendida por alguém
Transfigura o medo. Dá forças.
Palavras são artifícios viscerais,
Rosas têm perfume alucinógeno, e o olhar...
tem poder paralisante.

Mas e quando o “Mundo” é citado em vão?
A tal segurança oscila...
E como a razão se sustenta?

Vêm a dúvida e a vulnerabilidade,
O medo e a saudade...
Saudade do tempo bom sem conflitos,
Saudade de uma mente livre de desafios.
Saudade...
De uma incerteza mascarada.


Por: Ilka Souza

domingo, 20 de novembro de 2011

Devagarinho

As mais belas palavras,
Aquelas mesmas...
As mais desejadas.
Talvez eu não queira mais ouvi-las.
Ou então eu não sei como recebê-las.
Culpa de conceitos,
Medos,
Dúvidas.
Não me resta nada a perder,
Tenho é tudo a ganhar.

E quando olho pra ti minha voz emudece,
A saliva se esvai,
Meus reflexos desobedecem.
Vem-me aquele pertinente frio na barriga
Mas o meu coração,
Ah! Estúpido coração...
Ele não acelera.
O que eu mais quero é saber que te amo.

No entanto,
 Nada como o tempo para me fazer notar o inevitável:
Não quero viver com tua ausência,
Sua presença me detém num estado em que
só a euforia me contém.
Noto, enfim, que uma reformulação bem à altura me convém:
O “eu te amo”, como diria Quintana:
“tem de ser bem devagarinho”.


Por: Ilka Souza

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Conto com a dúvida

Ao caminhar por seus pensamentos ela percebeu, de repente, que não sabia quem era. Notou que o que a intimidava não a atingia mais, e até mesmo o que lhe causava um estopim de emoções agora era irrelevante.

Sentiu aquele cheiro que, há tempos, lhe causava arrepios de euforia e, quem sabe, excitação, mas nada a acometeu. Percebeu que o silêncio da sala vazia preenchido apenas com suas significativas presenças agora causava um peso enorme no ar que respiravam e um súbito esquecimento do que fazer e do que dizer, o que antes seria substituído por um beijo. Exatamente isso: antes. E não hoje. Não naquele momento.

Uma dúvida, no entanto, tornou-se constante em seus devaneios: será que alguém seria capaz, um dia, de provocar-lhe tais sentimentos que outrora sentira por ele?
Isso só o tempo dirá...

Por: Ilka Souza