sexta-feira, 20 de maio de 2011

O sorriso de Helena


Era uma quente tarde de verão. Ela estava parada lá, de frente ao espelho, olhando sua aparência normal e depreciada. Não era feia, fato, mas também não era linda. Normal, apenas normal. Constantemente debruçava-se sobre livros, se perdia em suas histórias, comia, banhava-se, preparava-se e saia para trabalhar. Voltava para casa e tudo se repetia, não havia ânimo, não havia alegria, só existiam os dias e ela apenas os observava passar.

Contudo, naquela tarde tudo mudaria.

Na rotineira ida ao trabalho enquanto caminhava, Helena avistou-o. Seria realmente ele? Ela não tinha certeza. Apertou os olhos e o encarou, era ele mesmo. Não podia ser, ele teve a coragem de aparecer por aqui? Então, ele a viu. Ficou um pouco desconfortável, mas logo recompôs sua expressão e veio cumprimentá-la. Helena disfarçou sua abominação, respirou e sorriu. Ela sabia o que ele fizera, ninguém conseguira provar, mas ela sabia.
Então, Helena e Paulo estabeleceram um diálogo, até riram juntos, foram num bar próximo e tomaram um drink. Com o passar do tempo, ela notou uma sucessão de olhares significativos lançados por ele. Seria sua chance? Ela apenas sorria. Ao terminarem a bebida, despediram-se e ele a convidou para jantar naquela noite, ela aceitou.
Não foi trabalhar naquele dia, voltou para casa. Produziu-se, olhando-se no espelho poderia até se considerar mais bonita do que de costume. Deram 21:00 horas, a hora marcada,e ele ainda não chegara. Será que não viria? 21:15 e os olhos no relógio, será que perderia sua única oportunidade? 21:30 a campainha toca. Ela se recompõe. Abre a porta.
Ele estava belíssimo, seria impossível ignorar. Chegando ao restaurante, muito fino, diga-se de passagem, sentaram-se numa mesa e fizeram o pedido. Jantaram, conversaram e conversaram, quando ela deu por si já estavam na casa dele.
- Eu sempre soube que você me queria - disse ela, com um olhar sedutor. – Só andava com meu marido por esta razão.
- Ah soube? Mas você nunca me demonstrou isso.
- Bem, agora estou fazendo mais que isso não é?
- Estou vendo. – Disse ele beijando-a.
- Por isso você o matou não foi? – Perguntou Helena.
Ele parou um pouco e olhou-a. - Como você pode dizer uma coisa dessas?
- Ah, admita. Na verdade você apenas me fez um favor, se você não fizesse, eu mesma o faria.
Paulo olhou-a um pouco desconfiado, mas manteve-se calado. Helena tornou a beijá-lo.
Então, sem que ela esperasse, ele a puxou para si com mais força.
- Sim, eu matei aquele idiota. Sempre sonhei em ter de você o que estou tendo agora!
A noite seguia. As luzes se apagaram.
Naquela manhã, debruçada no sofá, uma xícara de café de um lado, o jornal do outro, ela ouvia o noticiário: “Homem é encontrado morto com facada no peito em seu apartamento. Não há suspeitas sobre quem cometeu o crime (...)”.
Helena comeu, banhou-se, se vestiu e foi trabalhar, sua rotina seguia normalmente. Só havia uma diferença: agora ela sorria.

Por: Ilka Souza



2 comentários:

Belma Andrade disse...

não sabia que tinhas colocado o título que solicitei... rss

Enfim, escreves admiravelmente bem! :D

IlkaSouza disse...

Pois é, num te disse que ia colocar!
:D
Obrigada!

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