quarta-feira, 12 de abril de 2017

Poça d'água

Foi pisada, espalhada
encurralou, foi respingada
passa carro
passa gente
tem buraco, ela se encaixa.
Não há passos que não molhem,
há camisas encharcadas
dos problemas da cidade.
Se repete, outros se calam
boca grande só se abre
pra xingar motorista bravo,
que após enfrentar o tráfego
inunda ira na calçada.

Ilka Souza

quinta-feira, 16 de março de 2017

A quem se foi


Já faz semanas que teu nome
visita minha mente
faz passeios
em lembranças,
nas buscas de quem eu sou.
Já faz um tempo que tua memória
me recorda quem eu era
possibilidades já perdidas
sim, queria ter sido melhor.
Não cuidei de tua fragilidade
como sei  que deveria.
Não escutei o suficiente das tuas histórias,
que teriam me feito crescer.
As poucas que ouvi, guardei
me impulsionam
a querer saber mais
cada vez mais
me fazem reconhecer tua grandeza.
Não tinha ideia dessa nossa ligação,
mas a memória rala que me resta,
disso tudo,
me traz uma única certeza
e ela só pode ser traduzida em saudade.


Ilka Souza

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Hoje achei uma daquelas conchas...
Na verdade foram duas,
aqui já houve três ou quatro.
Sempre me perguntei como cabia o mar lá dentro...
Agitava-as esperando caírem gotas de mar salgado
vovó dizia ter mar lá dentro.
Acho que, por isso, no quintal da casa dela,
a terra se misturava a conchas e cascalhos
a trilha dava no mar
a brisa cerrava meus olhos
mantinha meus cabelos assanhados.
Nunca vou desacreditar:
Havia mar lá dentro,
E ele ainda está lá.


Ilka Souza

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Revolvendo-me em ruínas decidi reinventar,
Mudei cabelo, pintei olhos
Pus meus passos a dançar...
Chega de correr,
Melhor é rodopiar.



Ilka Souza

domingo, 18 de setembro de 2016

Reflexões do retorno

Pela escala fria, passeei sorridente
pus-me a andar, tateei inocente
dos gélidos ares parti, percorri,
fui em frente
aceitei o calor que outrora fugi
descobri que aconchego também vem do corrente
e que não há nada
nada!
Como a cama da gente.



Ilka Souza

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Configuração

Tenho buscado figuras que ilustrem minha passagem.
Daquelas que colorem olhares e preenchem ouvidos.
Com texturas capazes de aquecer um dia frio.
Quero figuras que me tomem, que saciem minha fome.
Quero-as poderosas, levando mares aos meus olhos,
inundando toda face e provocando riso fácil.
Quero que causem soluços.
Mostrem-me soluções.
Que me traduzam antigas dores.
Que apaguem aflições.
Quero, com elas, descobrir prazer.
E que façam-me gritar, também (quem sabe?) cantar...
Ouvir minha voz em seus tons e vibrações.
Quero ser guiada até mim.
Que levem-me, serena, a sentir.
Fazendo, tudo, minha linguagem exprimir.
Assim,
saberei que existo.

Ilka Souza



Refletir distâncias

Uma vez pensei que se tratava de geografia.

Ilka Souza

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Beijo de boa noite



Ele chegou vacilante
despejou seu abraço tranquilo
como quem evita um abismo.
Seu olhar longínquo, de semblante triste,
enxergou a própria alma e sorriu.

Me sorriu, pois, com os olhos.
E com a alma também.

Ilka Souza

Busca



Leio meus poemas em busca de quem eu era.
Este eu correu tão rápido,
Que escapou às minhas vistas,
Escapuliu por meus ouvidos,
Cavou caminhos bem escondidos.
Creio eu, fugiu de mim
Em/de todos os sentidos.
Sigo pistas, caço rastros
Dou passeios desgastados
Como pode [posso] eu
Me deixar assim no vácuo?

Ilka Souza


[Poema feito numa madruga, ouvindo Eric Clapton - BB King -Crossroads 2010 – Live, depois de um dia sem concentração e tentativas frustradas de estudar o que mais gosto sem entender porcaria nenhuma do que quero pra minha vida].

Binarismos

Eu sou flor,
Tu és vento.

Tu precedes tempestades

Eu sou cor, também sou cheiro,
Fui plantada a pés descalços.

Só que, tu...
Que fazes tu?

Tu invocas sobressalto

Há sol forte o ano inteiro
Confundindo nossos passos.

Sou primavera,
Tu, outono.

Já me basta,
De verdade.



Ilka Souza 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Havia uma flor

Havia uma flor.
Como eu diria? Tão rosa...
Carregada na mala de um viajante das horas.
Precisava de zelo, a singela da rosa
Mas não era notada, pois corria o tempo!

Segundos travessos passeavam em volta,
Minutos apressados os guiavam afora,
Mas ao adentrarem, juntos, o infinito [do tempo!],
O ponteiro da hora esbarrou foi num beco
Estreito e sombrio, o avesso da aurora.

E assim ressecavam suas pétalas caídas,
[pobre da rosa]
A chuva por vezes lhe regava por pena...
Ansiava o dia que
[talvez]
Por olhos perdidos
Fosse, ela, encontrada, no intervalo das horas.


Ilka Souza
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