quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Aroma




Sinto o aroma de flores
Mais um ciclo primaveril, vou fechando
Continuo procurando o caminho, sigo andando.
No passado, deixo velhos rancores.

Quatro estações sucederam-se
Cada uma com seu tempo infinito
Cada uma, com uma memória esvaindo-se.
Mas, o aroma de flores, ainda sinto.

O verão dissolvendo-se em lembranças,
O outono desconcertando-me em fortes ventos
Só me deixaram a breve esperança
De, no inverno, não afogar-me em lamentos.

Ah! Doce aroma primaveril,
Sinto que me levas a novos sentidos,
Rogo que me guies a novas estradas.
No fim, te direi que não mais inspiro
O mesmo aroma de flores, em minhas passadas.

Ilka Souza

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Nos meus olhos





Veja-se, não como um mero reflexo da máscara em que você se encobre,
Mas, sinta-se despido.
Note-se inteligível, límpido.
O movimento dos teus lábios,
O tremor da tua voz,
O piscar dos teus olhos,
As particularidades dos teus gestos,
Veja-os no reflexo.

Sinta-se amado
Ou mesmo odiado
Perceba-se ferido
Possivelmente ferindo.
Podes ser querido,
E até mesmo esperado,
Provavelmente estarás afastado.
Não me importa o teu estado.

No fim, és antiquado,
Antigo, contrário.
Ainda assim amado, ou seria, estimado?
Não vês o quanto és notado?
Não ouças!
Não precisas que eu argumente.
Leia os meus olhos,
São apenas reflexos de minha mente.


Por: Ilka Souza

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Lua


Lua


A lua me sorriu hoje.

Sua luz amarelada advinda dos raios de sol
Os meus olhos encontrou.
Na noite escura, com sua beleza,
Se destacou.

A lua, para mim, sorriu.

Através do movimento das nuvens
Incisivamente ela brilhou,
Durante o farfalhar das árvores,
Meu caminho iluminou.
Tomou as vestes de astro, o travesso satélite
E como quem se diverte
Sua luz, em mim, despejou.

Rotina estressante,
Ostracismo constante,
Silêncio gritante,
Tudo subitamente se abrilhantou
Ao mesmo tempo em que o mal, por um instante, se apagou.

A lua sorriu para mim hoje
E, com ela, o meu sorriso brotou.

Ilka Souza

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Refúgio

Já disse o mestre filósofo:
-“só sei que nada sei”,
E eu, por minha vez, o que posso dizer-te que sei?

Este tal espírito prático
Que tanto assombrou Cecília*,
Que tanto faz as coisas parecerem difíceis,
Inviáveis e impossíveis
Espero que não me persiga,
Espero que ele não consiga
Fechar os meus olhos de vez.

Os sons que por vezes me irritam
Habitam os mesmos lugares que amei.
Lugares por onde passei,
Onde o meu sorriso deixei.
Será que devo fechar-me?
Ou esperar que minha sutileza seja notada?
Sutileza presente nos atos,
Não precisamente em palavras.

Nas palavras encontro a intensidade desejada,
Encontro delicadeza precisa
Escrita num emaranhado de páginas.
Palavras que borram com a água salgada
Nascida nos meus olhos e que embaça minha visão.
Lágrimas,
Despertadas com as palavras
Lidas até então.


Ilka Souza
*Referência ao Espírito prático presente na crônica Imagem, de Cecília Meireles.

domingo, 4 de março de 2012

Azul

Azul sereno, azul pulsante
Me acompanha a todo instante.
Em sua clareza revela minha busca,
Com sua escuridão esconde a minha culpa.
O tom que fica entre ambos é o que sustenta minha angústia.

Nas idas e vindas no caminho do meu futuro,
Tudo varia do azul claro ao azul escuro.
Observo, apenas observo
O que tão facilmente se esvai,
O que, não obstante, sequer existe mais.

Mas há brilho sobressaindo-se a toda essa escuridão,
Há uma estrela nesse azul anil contrastando com o azul sombrio nessa imensidão.
Estrela esta que me acompanha, mostrando-me que
Há sempre um caminho alternativo para ir,
Basta seguir as coordenadas,
Basta procurar me situar, assim como faz um navegante
Perdido em alto mar.
Basta com as constelações me guiar.

Tenho certeza de que não irei naufragar
E a estrela mais brilhante do céu
Ainda me representará.

Ilka Souza

Desritmo

Destino
Desatino
Descompasso
Despreparo
Descrença
Desamparo.
Logo,
Despedaço-me em
Dez pedaços.
Desmascaro a nota do
Descaso e
Sigo neste compasso
Com a melodia do que não foi dito.

Ilka Souza

Arte

Ar, arte, amar-te,
Tudo isto faz parte
Do que vem no meu enc’arte.

Ilka Souza

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Girar.


Sentir a água cair no seu corpo. Retirar toda a sujeira vinda da rua. Lavar os maus pensamentos. Focar em si. Secar seu corpo. Aos poucos vestir-se. Olhar no espelho. Ver a si mesma. Escutar sua banda preferida. Aumentar o volume do som.
Girar. Girar. Girar. Girar...
Era tudo o que precisava para se sentir viva.

Por: Ilka Souza

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A menina e as palavras

Enquanto a menina corria ao encontro das palavras elas simplesmente desapareciam.
A garota andava, se entreolhava... Balbuciava,
Mas os sentidos que realmente buscava insistentemente não vinham.
As palavras, no entanto, com o passar do tempo desenvolveram o livre desejo de abraçá-la, porém quando acontecia, raramente a garota notava.
Iniciava-se então um eterno pique - esconde entre escritora e poesia.
Havia horas de ânimo, desânimo e de completa apatia.
Muitas vezes quando uma palavra intercedia, a garota estava dormindo e em forma de sonho ela se recriava. Se ela se lembrasse de tudo ao acordar isso sim causaria completa alegria.
Quando ocorria de, ao menos, pequenos pedaços das belas histórias saltarem-lhe à mente, ela logo anotava, senão tudo se apagava...
Assim levava a vida a triste escritora que se perdeu no caminho da poesia.

Por: Ilka Souza

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Confissão

Escrevo para expulsar a realidade latente que há dentro de mim. Às vezes dou-me conta de que não passa de uma tentativa inútil, sabe-se lá...
Mas acredito nas palavras escritas e isso faz doer menos, engana os meus sentidos, parece uma espécie de droga alucinógena que causa menos autodestruição. Pena que o efeito é oscilante.
Escrever...
Quem sabe não signifique salvação?

Por: Ilka Souza

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Alegria meus senhores, alegria...

Carnaval - Tarsila do Amaral

De repente ela parou e repensou os últimos acontecimentos. Percebeu que tudo se assemelhara a um pesadelo que parecia não ter fim, daqueles que você não enxerga uma possibilidade de acordar, que chega até a sufocar. Notou então que era possível respirar, viver de um modo diferente, aliás, viver melhor do que antes.
Acordou mudada, sentiu a falta do que viria, sentiu a falta do novo. Disponibilizou-se a sorrir novamente (o movimento dos maxilares para tal ato ainda doía um pouco, mas assim como qualquer contusão muscular logo passaria). Não deixaria as páginas desbotadas de um vão passado mancharem os seus dias.
Cores, música, sabor, encorpavam seu livre almejo. Novas perspectivas a esperavam e a possibilidade do novo a inebriava. Inéditas palavras saltavam de sua mente, recheadas de uma poesia nunca dantes proferida, uma poesia em reconstrução, aquela que reescreveria sua vida...
Serpentinas começavam a cair, máscaras voltavam a ter como função ocultar enigmaticamente belezas desconhecidas. Cambaleante, ela se propunha a levantar. Os maus pensamentos logo ficariam a esmo. Precisava recomeçar.
Iluminada assiduamente pelo sol, a lua, aos poucos, voltava a brilhar.
O belo mais uma vez remanesceria ao grotesco.
Alegria meus senhores, alegria...
Era tudo o que esperava para si.


Por: Ilka Souza

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Chuva


Chove chuva
Vem, Oh chuva
Leva chuva
Lava chuva
O sol virá,
Sua luz prevalecerá
Limpo estará o chão que vou pisar.

Por: Ilka Souza

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Palavreando

Pode parecer simples
Aprender o que a
Língua nos diz
Aprender a
Verdade de tudo
Recriar o que achamos imundo
E amar
As mais belas coisas do mundo.
Nada será em vão, se vir
Do fundo do seu coração
O prazer de não apenas dizer “não”.

Por: Ilka Souza

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Vão


Solidão acostuma,
Não é bem-vinda,
Instala-se de uma forma a não ser percebida.

Quando a felicidade vem,
Assusta.
Mas a segurança defendida por alguém
Transfigura o medo. Dá forças.
Palavras são artifícios viscerais,
Rosas têm perfume alucinógeno, e o olhar...
tem poder paralisante.

Mas e quando o “Mundo” é citado em vão?
A tal segurança oscila...
E como a razão se sustenta?

Vêm a dúvida e a vulnerabilidade,
O medo e a saudade...
Saudade do tempo bom sem conflitos,
Saudade de uma mente livre de desafios.
Saudade...
De uma incerteza mascarada.


Por: Ilka Souza
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